- me lembro que levava bolos de frutas engolindo seco as mãos dele eram quentes demais pra lembrar do vazio que deixavam quando percorriam a pele ressecada de poeira e desuso iam abrindo as pernas e os braços tentando engolir a gente num desesperado gesto tentativa de companhia fingindo delícias escondidas debaixo de lágrima e humilhação...
Interrompendo o riso súbito ele escondia a voz dela no seu riso enfeitiçado de luxúria e hipocrisia e encaixava os lábios na parede oca, buraco feito propositalmente:
- ...eu não consigo me encontrar mais em seus olhos eu devia estar em suas mãos ou no seu corpo fedendo saudade mas estava preocupada demais com os ponteiros do relógio que não consigo fazer parar andam e andam sem minha permissão me ajude me ajude me ajude...
"Hilda Hilst não lhe fez bem" pensava ele rodando a língua, envolvendo a bala na boca, nas mãos os pés:
- ...eu esperava algo maior do que aquela infinita espera eu precisava de algo maior do que aquela terrível ausência eu precisava de algo melhor que aqueles dois olhos que eu sonhava a me espiar me despindo com violência e sobrancelhas erguidas e que não existiam não existem inventei-os inventei-me aviltei-me ouça meus sonhos e não te rias seu bastardo seu voz de veludo em pescoço alheio seu inventor de mentiras e carinhos invisíveis estou cansada veja como tremo venha estou tremendo eu quero eu...
A cabeça martelando mais uma nova enxaqueca, mais uma dor pra colecionar, latejando as veias, enfraquecendo o cérebro, o estômago entorpecido, tudo escurecendo o céu se aprontando para a chuva "Oh deus, esqueci o guarda chuva!":
- ... esperava mais mãos possuindo meu corpo eu esperava mãos e só tive fumaça e ausência aonde estava você quando eu gritava enquanto eu deitava no chão e me contorcia de soluços e soluções aonde estava seu corpo quando eu ansiava um simples abraço aonde foram seus olhos sem me pedir ajuda sem minha indicação do melhor sabor de sorvete tomar em dias quentes em cidade desconhecida onde tudo está tão vazio e o peito e as mãos e o coração aonde foi parar aquele maldito gatoque você prometeu guardar em lugar seguro você prometeu me guardar essa cova é minha mataria meu corpo e libertaria minha alma olhe ...
Enxugando disfarçadamente os olhos em brasa, virou o rosto em negativa diante dos braços sugerindo o abraço,
-... eu sempre quis saber como seriam as pessoas depois da minha partida e depois daquele dia 13 eu vejo que não faz diferença só me chegaram palavras vazias e vazias de sentido e vazias de açúcar e vazias de sentimentos e vazias vazias como essa cova que cavo pra me enterrar viva ouviu viva eu grito viva ou quase isso eu já parti meu caro você quem não aceita a solução seria só essa eu me perguntaria se eu realmente fizesse alguma falta pra essa ausência de torpor de entorpecimento de tropeços e pedras no caminho e um abraço hoje eu só queria um abraço e você com essas mãos vazias me oferecendo o infinito do fundo do copo enquanto eu grito de dor e lastimo o dia que botei os olhos em você e não tirei mais e você aí todo cheio de pose e tinta azul nos olhos parecendo uma boneca androginia já era isso foi nos anos 80 pare de me dizer o que fazer pois eu grito grito e nada basta além dos feitiços que finjo fazer pra você me notar e você me ignora... Fingindo não ouvir deu mais um passo além do paraiso e sorrindo beijou-lhe a fronte suada de loucuras:
- Adeus boneca.
-...oh não não se vá eu prometo pontuar eu prometo eu prometo ...

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