Encontrei na memória
sua feição, retratista barata, imperfeita e incurável, insisto em pintar seus
olhos da cor errada, insisto em colocar suas mãos nos lugares errados, insisto
em esquecer que eu gosto de outro jeito
pelo prazer de redescobrir. Movendo sua lembrança pra fora de casa, embalada em
caixa de papelão e movendo devagar os quadris grandes demais, deixava um rastro
de suor e perfume barato e a poeira
caindo dos olhos líquidos da roupa suja e o mofo dos ouvidos e a língua
destreinada, as mãos inúteis, as pernas flácidas eram o corpo desfazendo-se com
o tempo...
Nada é como parece ser...
- As pessoas me tratam como deixo, então me deixo em suas
mãos, escorro por elas feito aquele líquido que escorre na boca que escorre no
rosto que escorre dos dedos que escorre nos cabelos naquela chuva infeliz,
elegante meretriz me permito mais um desfrute...Saboreie-o bem pois será o
último...Todos os dias deveriam ser os últimos disse a criança -
Queimo e queimo os olhos e a pele no sol, queimo e queimo a
solidão que me devora feito a paixão que arranco dos cabelos sujos de suor e poeira arrancada das partes
de livros que restaram do resto de inteligência guardada no armário que não
guarda nada além de almas partidas com copos quebrados e ausências e
partidas...
E tudo vira pó, do prazer à arte a parte que falta é essa: a angústia do
existir sem prazer algum, da solidão à imitação...Preciso mais que palavras
escritas num papel, preciso mais que algumas migalhas de atenção, preciso mais
que alguma consideração, preciso mais....Não me decepcione por favor...Estava
chafurdada com a cara na lama enquanto os passantes riam da minha ingenuidade e
a morte estava longe demais para alacançar o prazer das coisas pequenas...
Beijo na boca e aperto de mão. Seria o fim do tal amor?

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