sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Sobre as mãos...
- Eu sei que tenho os braços curtos, mas não tenho culpa de querer abraçar o mundo...Eu abraço a dor alheia e transformo-a em dor minha e dorminhocando ela fica em meus braços, sozinha, intacta, irreparavel, irresistível, batom vermelho nos lábios...
- ...a tristeza pode usar batom vermelho, mas a dor nem ao menos tem lábios... Adoro mãos, com elas dilacero meu coração.
- Eu sempre achei os olhos estranhos daquele rapaz, os olhos dele pareciam querer me comer, abriam a boca e num pulo só...Agarravam as minhas mãos e obrigavam-nas a percorrer seus delírios...
Arrancava as teias de aranha do ar invisível do sono, enquanto a voz continuava a cantar o jogo da velha. O sol batia nos cabelos e na agressão importava-lhe a estranheza da realidade obscura da foto preto e branco. Pretos e brancos os insetos caminhavam na terra ou na Terra.
- Agora que chegou, poderia me dizer aonde guardou as vozes dos livros que estavam na estante?
- A voz que eu anseio não estava lá, nem sequer pendurada no telefone, o gancho pendia livre e silencioso na mão do cigarro.
- O café esteve amargo além do alcance. O café esteve comigo por alguns minutos dentro da xícara, até que a garganta jogou-o dentro do infinito do vaso sanitário. A existência inexistente da presença que jamais existiu, iludida, cantarolava canções felizes pra brincar com a solidão. E tudo quer dizer a mesma coisa, enquanto finjo ser inteligente, enquanto finjo fazer sentido, enquanto as palavras fingem dizer algo, enquanto eu finjo roubar suas mãos...
As sombras no chão escreviam a saudade, a companhia, a ilusão...Ela fantasiava presenças, discursos e palavras ao vento, a duração de um sorriso era o infinito da felicidade, de repente percebia-se observada e continha a solidão:
- Não! A cantiga era outra, estava cantando aos pássaros no céu e no inferno e o samba tocando alto nos nervos e nas veias enquanto os pés fincados no chão dizem "eu não vou sambar"; e as pernas travam, a boca seca e o sonho enfraquece a voz e amparada ali, sua alma grita de pavor diante da realidade.
Desenhando gotas de chuva no rosto da revista, as mãos se entregam ao sonho...
- Deliras, Guarde-as, mais tarde há de precisar delas...
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