O mundo acabando lá fora e ela aqui dentro insistindo em ser poeta. "Poetisa!", corrigirá rápido..Mas não, a cabeça balança em negativa: quero ser poeta! Drummond era poeta, João Cabral construiu poesia e foi poeta...Mas e Clarice? Clarice era Clarice podia tudo, era tudo. Poeta poetisa tudo em uma noite só, sem retocar o batom.
Engolia o cigarro e o pouco álcool que sobrava no café e envolta em realidade desbravava o tédio.
A poesia era algo mais próximo que as palavras de amizade que encontrava, a realidade era mais tristemente poética que o imaginávelmente saudável...Pensava palavras... Bordando-as no ar com o pé esticado sobre o pedaço de sofá que sobrava do estiramento do cachorro deitado...
A chuva não caía mas a dor no estômago pressagiava um cado mais de solidão..Os lábios fechados mordendo a bochecha por dentro... A ausência de apertos amaciava o coração... Estava tão doce, entulhada em tanta decepção que jamais retiraria o sabor de dentro da boca fechada.
A poesia rabiscada dentro das pálpebras - era impossível ouvir as letras assim. Não se importava mais com significados e balbuciando desejos infinitos angustiava a solidão entre os dedos frios do seu pé grande. Remexia com nojo as formigas afogadas no café e satisfeita com a carnificina imaginava se-fosses...
"Grande merda, você jamais seria...!"
"Jamais termine essa frase!" - tremia.
"Jamais..."
Na impossibilidade de ser eu sinto, apenas sinto.

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