terça-feira, 26 de março de 2013

Canção da Centopeia





- Quando começa a virar ódio, quando é raiva e não simpatia?...

Interrompia sempre, com a boca escancarada em um O perfeito, as mãos pousadas servilmente no colo, os olhos meio úmidos, sempre o mesmo quadro da janela, a fita nos cabelos, o vento batendo as portas:

- Não, não é raiva nem ódio. É saudade... É uma ânsia de vômito agarrada na garganta como se as lágrimas viessem explodindo seu corpo desenterrando sentimentos...?

Balançando a cabeça em discordância até o pescoço deslocar, rejeitava, sacudindo os ombros como se enfatizasse a negativa, mas não:

- Não... Eu o havia enterrado, ele retornou das terras sujas do esquecimento, roubando espaço na minha mente, roubando o resto de paz que sobrava em mim...
- Não culpe pessoas pelos erros que você cometeu.

 De repente o sangue jorrava feito inundação, vazamento de represa, estouro de boiada d'água. Mas era tudo imaginação, aquela vontade louca de matar aquilo que corroía, matar aquilo que incomodava, esquecer quem já te esqueceu, novo mantra, desistira de Flaubert. Torcendo os dedos entrelaçando-os, rompendo as juntas, quebrando as unhas nas palmas das mãos...

- Irreconhecíveis olhos de água parada. Tudo era um abismo, tudo era quase. De um abismo oculto no peito, de um vazio incontestável na alma, de lá vinha uma canção.
- Canção de morte.
- Canção de amor, ando sentimental. Desaguando dentro dos olhos aquela última canção silenciosa, faço verdade os sonhos que desisti.

 "Canta sozinha a centopeia, cigarra acesa em brasa e solidão. Anda sozinha centopeia dentro do mar de ilusões. Morre sozinha a centopeia no esgoto do desgosto." Parou de cantar ouvindo os passos na janela, ah borboletas...

-Ali, bem ali perto de onde nada existe, existiu uma sombra de felicidade traiçoeira, risonha da desgraça alheia, aninhando-se nos cabelos, sussurrando injúrias e depreciações, ah maldita...
- Não consigo ver, onde está ela?
- Ali ó, Ali... Aqui ó. Nesse peito vazio.

 Pendurado nas pedras dos olhos debruçados nos lóbulos da orelha, lá estava ela. Lá estava ela, naquele dia em que me perdia, naquele dia em que me esquecia, aquele som, aqueles cheiros que me rejuvenescia anos, aquela saudade...

- Assuma, não é bem saudade...Você fica revirando gavetas mofadas em busca de alergia e lembranças mortas, pessoas mortas, fica roendo seus cadáveres e chorando atrás das portas, sendo esmagada dia após dias por sua própria mão no pescoço. Assuma, você quer doer.
- Não, eu quero viver.

Um comentário:

Renato Rodrigues disse...

Escavar em cemitério aonde estão enterrados velhos sentimentos não é uma boa atitude mas, insistimos em escavar cada vez mais fundo como se tudo fosse ressuscitar de forma perfeita, ou pelo menos melhor ou mais confortável.
Isso!
Buscamos conforto em memórias
Mas a realidade se aproveita disso e bate cada vez mais forte na nossa cara.
Belo Sam. Perfeito!!!!