terça-feira, 8 de janeiro de 2013
O vaso ou sobre indiferenças.
Era indiferente.
Aquele vaso estava abandonado, aquele corpo estava abandonado, aquele peito estava abandonado. Notando bem, nada mais havia de vivo ali: uma cadeira, um tapete numa janela, tudo muito individual, tudo muito impessoal, não havia marcas de felicidade, não havia sorrisos nos cantos, destituído de cores o quarto sofria calado e inerte ao calor e o sol espancando a tinta das paredes lá fora. O vaso dominava a solidão das palavras que o rancor prendia no ar, nas paredes, na janela de madeira que emperrava pra fechar.
E assim a vida ia. Seguia devagar, pendurada nos fios dos postes, querendo a sorte do fio desencapado, mas esquecia-se que não era passarinho. E mesmo sem ter asas andava nas pontas dos pés e sorrindo quase acreditava em sua bailarinice.
Os olhos permaneciam a espreitar, ronronando, bagunçando os cabelos, quebrando as unhas, farejando, lambendo, mordendo o pescoço e a vida seguindo alheia ao vaso sedento no quarto abafado de janela de madeira que emperrava pra fechar.
Indolente o vaso reinava. O quarto abafado era seu reino, mas reino de um vaso apenas. Um vaso barato cor de tijolo sem pintura nem verniz, rusticando o resto do ambiente, a pouca terra cobrindo restos do cadáver de velhas fotos que lágrimas noturnas viriam regar, viriam negar a lembrança, viriam trazer maldição. E sendo vaso reinava, no seu poder finito de cemitério particular de lembranças adormecidas.
Havia algum tempo que a solidão esmagava o ar entre as paredes, havia algum tempo que a porta não se abria rangindo mansinho de madrugada e os passos fugiam do sono no colchão, havia algum tempo que o abandono não agia ali, havia algum tempo que a insensatez não coloria as paredes com gemidos involuntários, havia algum tempo que não voavam cabelos e cabeças na madrugada ébria, havia algum tempo que nada era atirado ao ar. Havia meio que uma paz. Era como se alguém tivesse calado a dor, era como se o dia amanhecesse num sorriso. Era como se fosse, porque era só indiferença.
Era vida seguindo seu rumo, o rio fugindo do mar, o coração que não vai se importar, eram os sonhos podendo voar, era o amar silencioso de ninguém. A ausência de dor chamou a morte. E mais uma bala perdida e mais um copo de veneno e pronto a vida acabou. A lembrança morreu dentro da boca cheia de sangue, naquele estupor, naquele estranhamento: Indiferença.
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2 comentários:
Sâmela, adorei seu blog. Parabéns! Ontem li os seus poemas da ìpsis Líteris e me encantei. Convido vc para ler seus poemas no nosso encontro literário "POESIA NO TALO" que será realizado dia 19/01, sábado, a partir das 16h no Sartém Empório Árabe. Abraços!
Quando tudo o que nos resta é um vazio, Ser completo já nem faz tanto sentido assim. Buscar direções, rumos e sentidos, é um querer involuntário. A gente se joga no escuro da vida sem saber no que vai dar. Incerteza perturbante. E isso nos transforma.
Abandonadamente Belo Sam.
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