quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Esquizofrenia




Passado o luto encaro a imagem no espelho, decidida a renovar forças inexistentes faço a cara com tinta no ritual diário do quase palhaço que sou.

-É uma dor sem remetente, chegou e ficou sem lugar, varrendo os olhos com lágrimas e movendo os pensamentos em direções de esquecimentos. Nunca acreditei em fantasmas mas eles me rodeiam, são como o vento, eu sinto os olhos gulosos espreitando sobre o muro, pelo vão da janela, parados no corredor, encostados na portas; seu perfume, sua letra, sua sussurrante voz... Ah esqueça... Hoje eu queria ouvir, falar, mas me trancaram nessa escuridão, nesse mormaço aqui dentro, parece um forno sabe... E eu querendo me esquecer... Olho em volta e até as sombras nas paredes me remetem ao passado e tudo volta a atormentar... Estou exausta de existir, essa existência insalubre, insossa... Estou exausta. Parece que todo o peso do mundo está sobre minha cabeça.
- Você vê? A vida vem passando rápido demais por entre seus cabelos fracos...
- Fracos estão meus sentimentos e minha cabeça nem consegue doer, está oca, me sinto meio morta por dentro, parece que engoli um deserto... Não há dores nem sentimentos, tudo é apatia. Recortando dores de fim de semana encontrei uma ausência que não é mais minha, percebo que sequer suas mãos almejo, quero o vento nos cabelos remexendo a memória e o deserto revelando certa paz. Quero existir sem dor.

Perscrutando entre os cílios, os olhos invadiam a solidão alheia.

-Não há dores, não há amores, não há nada do que se orgulhar no espelho, veja. Observe bem, está tudo quase em decomposição, seus pensamentos, suas esperanças. Pare de se iludir...
De repente tudo era aquela voz, não havia céu, nem espantos, nenhuma cor era tão limpa quanto aquela voz. A clareza das palavras, a crueza do sentido. Esticava os dedos rígidos e pintava aquarelas nítidas num ceu azul imaginário. Suspiro. 

-Esquecer não dói mas dá uma preguiça!
-Não é disso que quero falar. Não encontro as palavras certas, não encontro a saída certa, nunca saio do redemoinho, nunca saio do turbilhão, dessa angústia que me engole e me digere em fogo brando.Fica tudo nesse punhado de nãos.

Como se falasse com outros invisíveis:
-Pra quê se proteger desse jeito? Não vê que os muros que construiu estão te machucando? Descruze os braços, descruze o cenho... Sorria, não doi.
-Já nem importa mais...Aqui é dor e inquietação, queria calma... Eu queria poder chorar, chorar até secar isso tudo aqui dentro de mim, esse amontoado de papeis e essa tristeza tão grande e essa ausência tão pesada e essa covardia que me sufoca... Eu construo mãos que desconheço com os vazios de palavras que me convém ou que vou encontrando por aí, pescando em conversas alheias de televisões e telefonemas, mas não há mais nada além de um vazio e a minha  maneira idiota de agir e eu sequer consigo parar e pensar... Eu devia pensar mais, eu devia ser mais, eu devia não dever tanto... Mas fico só colecionando palavras... Cansei de me sentir tão mal, cansei de ser tão má, cansei... Finalmente estou cansada. Realmente cansada.  Irremediavelmente cansada. Cansada desse ar que entra pelas narinas e explora meus pulmões contra minha vontade... Eu queria poder subir em cima dos  meus pés sobre os sapatos e dizer o quanto eu já te esqueci mas o que doi  não é ausência, é presença demais de ausência de espaços preenchidos num peito abarrotado de mágoa como o meu que eu finjo preencher com qualquer coisa que doa menos ou que doa mais, que fira, que fure, que cure mas só há mágoa. Eu cavo, cavo, cavo e debaixo destes sete palmos só há mágoa e a lama vai secando com as lágrimas e a saliva, e a maldição é continuar vivo.
 E num abraço quente demais pro consolo. As mãos embolando os dedos nos cabelos duros demais, ressequidos feito os lábios da morta.
- Shhh. Um dia passa, feito a banda, um dia passa. Respire. Oh...

E num soluço irreprimível.
O fim chegou.


Um comentário:

PAULO JOSÉ - PAJO POETA (Paulinho) disse...

Você!
Você é única! Insubstituível...
Te curto de monte.
Bjus