sexta-feira, 28 de setembro de 2012


- Sai dessa janela, menina!

"Menina...Vou ser menina até quando?"... A cara retorcida de rugas dos seus tortuosos 26 pedaços soltos de calendário. Pensava. O olhar cravado em algo entre duas pedras da rua de paralelepípedos. "Estão cada vez mais raras de encontrar...Vamos matar os paralelepípedos..." E todo o dia fingia ser grande demais na sua insignificância. E todo dia fingia estar longe demais de alcançar a dor...

Outro dia a cisma foi com uma fresta dentro da gaveta e o grito foi o mesmo: "O que tanto mexe nessa gaveta, menina!?"

Menina. Até quando ainda seria menina? continuava apensando observando a procissão interminável das formigas. Com o cigarro aceso, queimava formigas indefesas e sorria com o cheiro de morte. "A morte deve ser deliciosa" pensava diariamente... "Teria gosto de sorvete?" rodava as pontas do cabelo entre os dedos ou seria os dedos entre os cabelos? Não importa...

Menina.
Estava cansada de ser menina, queria mais, queria muito além do mais..A boca entreaberta deixando o vento invadir o pensamento. Estava assistindo a vida passando entre a fumaça do cigarro, construindo infelicidades propositais, buscando pessoas com a faca em punho prontas para machucá-la.

O pássaro voando em direção ao vidro da porta fechada, um espaço inteiro de ilusão..."Isso é o mundo?" Coçava a cabeça, girava os olhos, mordia a boca até sentir o gosto do sangue, a dor, "Única certeza de que estamos vivos..."

"Realmente vivos..."

Arrastando os chinelos e a vida, rabiscava no ar cada palavra dita, pensada, inventada, cada sonho bordava no travesseiro e seguia segurando o riso pelas tristezas da vida... Tragédias incalculadas dentro de um pote de geleia. "Tempestade em copo d'água é muito luxo pra mim..."

"Pra 'mim' brincar... Pra eu foder tudo com uma mangueira de bombeiro" colocava a mão na boca tentando impedir que mais sandices de lá saíssem. pra que impedir o que o vento leva, meu deus... Arrancando a cabeça de pequenos sonhos que pensara em ter, chegando perto de pequenas conquistas alavancou o salto e dormiu tranquila enquanto o mundo ruía...


Um comentário:

Renato Rodrigues disse...

O tempo, forçadamente, nos transformam em seres que não desejamos ser.
Estamos preparados?
Estamos dispostos a viver tal realidade indesejada?
Ninguém me perguntou isso. Acredito que nem a você
Porém, forçadamente, temos que viver.
Lá fora é assustador,
E aqui dentro tudo assusta
Tudo assombra
Essa vida não é minha
E esse mundo não é nosso

Lindo Sam. Perfeito menina
Sempre!