quarta-feira, 19 de junho de 2013

A voz do vento

Assistindo da janela mais um acidente imerecido, lê as letras formando palavras de esperança na tela pequena. Ainda há espaço em coração alheio para seu mal gênio e maus hábitos. Analisando as pontas dos cabelos que cresciam rápido demais, naquela ausência de definições de cor e forma, naquela ausência de botões ou aplicativos que aumentassem a saturação daquela imagem em seus olhos...
"Não. Não mexa aí. Deixe como está."
Houve um tempo onde o esquecimento perscrutava meu  olhos, meu crânio e na ausência de lugar para ficar saía junto com o vômito, o excesso de bebida, a solidão solidificada em sujeira e nojo.
"Não. Não mexa. Deixe como está."
O espelho completamente sujo de infinitas indas e vindas contemplava a janela aberta recebendo o amanhecer, mais uma noite sem dormir, mais uma noite perdida, mais horas que escoaram sem perceber, mais vida perdida em vão de portas..
- Já habitei tantos peitos, já morei em tantos corpos, já conheci tantos amores, já neguei tantos deles, entenda, há um ônus a se pagar pela arte e ser o que sou faz parte disso.
A ilusão glamourizada de uma arte morta, nascida e morta em línguas mumificadas. A imunização contra danos morais ainda não foi inventada. Aonde estão as vacinas contra a audácia daqueles que falam demais, bebem demais, não vivem mais? E o espelho se cala diante da tormenta. A parede não se mexe diante o turbilhão das ideias. Quebro as mãos e o espelho completamente inerte recebe o golpe  sem reclamar, juntaria os cacos, mas não é reciclável.
 "Não.Não mexa aí, por favor. Deixe como está."
Embevecida em tanta dor, catava nacos de sorte pelo chão da estrada e sorria vendo o vento passar. Os redemoinhos dançando, jogando os cabelos ao ar, num impulso tentando conter os fios revoltos, ouviu o vento:
"Não. Não mexa. Deixe como está."

Nenhum comentário: