quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Último pedido


- Eu construo casas e me escondo nelas.
- Você não se esconde de ninguém com esse ar de embriaguez e esse cheiro de ressaca.
- Quem disse?
- Eu digo!
- Grande diferença!
Mãos na cintura desafiando a pose de quem sabe o que diz, encara:
- E quem disse?
Olhar desafiando o medo.
- O vento mandou te trazer esses cachos de cabelo que você esqueceu de amarrar na cabeça.
- Deixe na cabeceira. Farei depois uma escumilha. Faça uma escumilha dos meus cabelos, sim? Prometo deixá-los crescer... Quero o mais bonito brasão... Inventaremos baronices em nossa família, flores e flores e não quero cores. Quero a cor morta dos meus cabelos. Nada de misturá-los aos seus. Eu quero uma lápide bem vistosa e com cara de cara.. O que vão pensar de nós se virem uma lápide pobre?... Não seria uma má ideia um caixão azul cor do céu...
- Que ideia é essa agora de caixão azul céu?
- Ah, eu li num livro... Um enterro lindo nos pés de um ipê e o caixão azul se misturando ao céu...
- Agora eu vi...
- Você vai ou não vai atender meu último pedido?
- ...
- Responde...
- Tá.
- Então não me interrompa.
A mão se mistura ao gesto e era impossível decifrar a carne da sombra. Tudo ilusão. Os cabelos se debatendo contra os vidros da janela e o vento embolorando o abraço que ficou nos braços de quem esperou.
- Você terá que achar Alvinho e o Senhor B. Eles virão a solenidade. Não quero padre, ouviu? Quero pássaros e flores voando. Só. E as pessoas não devem chorar. Nada de crianças também. Quero silêncio e sono. E você o que faz ainda aqui? Não ouve a música?
- Eu não entendo como tudo passou tão rápido...
- Talvez não tenha existido... Me agarrava a frases feitas e esquecia que o amor é invencionice... Eu sonhei um dia com um mar de lama gostoso de pisar e me sentia um pouco diferente do que eu sou... Não há possibilidades.. Sou água do mar...
- Indomável. Tentei te prender num pote, desenhei borboletas e felicidades, mas não funcionou...
- Sabe o nome de minha mãe? Minha mãe é Lilith... Infelizmente carrego no couro a dor de amar, por essa e tantas outras vidas... A intensidade do sofrimento resulta na força do amor...
Um par de olhos passeando no jardim, esquecidos da chuva e da solidão do corpo restando cego no banco.
- Sabe qual é o meu sonho?
- A escumilha?
- Também... Queria ser feliz, queria estar feliz agora, com sua cabeça em meu colo e eu me afogando nos seus olhos... Mas você é um fantasma que construí pra mim...
- Mesmo assim posso te fazer feliz...
-  Então faça...

2 comentários:

Löяy Davis disse...

Noooossa! hahaha
Um final imprevisível. \o
Essa forma de conto em diálogo que vc faz é mto gostoso de ler.O lirismo todo que isso faz. E tem essa mistura tbm do discurso indireto livre, a relação sua com a personagem. Ruleia!
Parabéns Sam.
beijokas

Nina disse...

Caramba! :O
Ficou muito massa! Muuuito! Eu adorei, simplesmente.