- Eu não queria que as coisas fossem assim, mas não me deram outra alternativa...As luzes no céu e os pontinhos se movendo na terra me dizem apenas pra correr, correr o máximo que eu puder, sem olhar pra trás, sem guardar raízes nem sentimentos... Dizer adeus ao mundo, me esquecer de todos, principalmente de mim...Eu não queria, mas como sempre o que eu quero não importa muito... Só sei que estou triste. Estou triste, sim, estou triste... Muita desilusão e muita mágoa e ainda tenho que provar muita coisa pra ter minha merecida paz, mas agora não sei... Não sei se é necessário ainda, é muita decepção, e sempre que se precisa de alguém todos viram escuma do mar e desaparecem... Tudo uma grandiosíssima ilusão, as pessoas não são o que parecem ser e isso eu já disse antes, mas eu sempre procuro o que me machuca o que pode me ferir irremediavelmente... Mais uma vez estou jogada no meio da rua com pedaços de vergonha cobrindo meu corpo e meu rosto sujo de tanto gritar tentando esconder dos olhos alheios quanta imundície, quanta podridão, quanta inutilidade... Ah estou tão cansada, sabe... Tão cansada, e ainda estou tão presa, acorrentada e quero voar... Nem que pra isso eu tenha que ir... Andar pelo infinito afora...Mas não aceito essas amarras, não aceito mais essas correntes, chega de me prender... Não há ódio, há cansaço... A consciência de ter feito tudo, a consciência de ter sido nada... A vontade de largar tudo e ir embora pra Bahia, largar mãe, bicho de pelúcia, frustrações, indignações... Ah, vontade louca de gritar até enlouquecer ou enlouquecer até gritar... Tá quase... Eu simplesmente me cansei de ter que me esquecer pra lembrar tanto dos outros e eu fiz isso por tanto tempo... Tanto tempo que nem me lembro mais quando começou essa obsessão... Eu me cansei de tentar me explicar, há tanta gente querendo não entender, querendo ver o que convém, o que quer ver nos meus olhos, nas minhas mãos... Não há arrependimento: há aprendizagem... Fingindo Lispector encontro nesse amontoado de dor e mágoa a identificação com o fundo do poço, o abismo de boca aberta esperando, esperando, espremendo a cabeça entre as mãos, fingindo não pensar, não ver, não estar, não ser... Eu quero tanto da vida ainda, pra me acorrentar no pé da mesa fingindo submissão... Eu quero tanto de mim e me frustro por não conseguir ser mais que essa lama nesse lamaçal, buscando indiferentes pedaços de papel e rabiscos incompreensíveis...Ah ninguém entende porque está claro demais... Ninguém pode por nem querer entender... Ninguém, quando digo, é ninguém mesmo... Não dói mais... Não dói porque não me permito nutrir dores suportáveis... Quero tanto mais do mundo, quero tanto mais de mim e das pessoas e infelizmente o que me resta é o tédio e a amargura na boca cansada de tentar explicar o inexplicável... Ah... O grito que saiu pelas mãos tentando empurrar boca abaixo a fúria de repetições do inesquecível... Eu tento fugir da dor que me consola, da dor que me acompanha e a única companhia que me sobra na cama é o desespero... Não pela ausência, mas pela presença de sabe-se lá o que... Seja o inferno, seja o céu dos desgraçados, essa angústia já foi maior... Você carrega metade e eu tento existir no meu infinito de defeitos e quando a Geni passar e me reconhecer sairemos de mãos dadas procurando o próximo da lista... Cansei de tentar me provar, tentar ser algo além do que sou, a desgraça de existir sendo quem sou... A maldade de tentar coexistir... A falsidade de importâncias gritadas e ditas e repetidas e eu realmente nem me importo mais... Eu não sou. Só isso. Não posso,não quero e não sou...
"Tem piedade Satã dessa miséria"

Um comentário:
"...e quando a Geni passar e me reconhecer sairemos de mãos dadas procurando o próximo da lista..."
hahah ri
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