-Ganhei outro laço.
-Mais um?Você nunca se cansa?
Ela deu de ombros e enrolando as pontas do xale entre os dedos,o olhar num ponto da parede :
-Quem se importa...No fim a vida vai passar,todo mundo vai morrer...
-Começou...
Impaciente.Era essa a palavra.Ela sempre conseguia fazer com que suas mãos ficassem ásperas...Não sei como.
-Eu já te contei do dia...?...
E ela foi indo em direções contrárias do que queria,falando só pra preencher o silêncio e a fome.Enrolando e desenrolando os fios nos dedos.Ponto fixo de mantra.
-Eu continuo com frio...Meus pés!...O problema são meus pés!...Eles nunca esquentam...
E continuou a reclamar...Era sempre a mesma coisa!Ele se perguntava como podia gostar daquilo,daquela em sua frente,coberta de laços invisíveis...Como que pra justificar sua agressividade afirmando com laços sua delicadeza.De certa forma era encantadora ali...Meio louca,meio bêbada,sempre parecia estar bêbada...
-"...como se fosse a primavera e eu morrendo...Eu morreeendoooo!"
-O que?
-Tô cantando.
-Ah.
Estranhava o perfume dessa vez,mais doce que o normal ela derretida em carícias e bobagens....Tudo era sistematicamente igual...O cabelo parecia mais longo,mas a qualquer momento apareceria careca...Ela era assim...
-...eu fiquei nervosa porque a Liberdade sobre a qual eu disse é exatamente essa que me obriga a ser desse jeito que detesto exatamente por não aceitar que alguém possa de alguma forma me manipular daí prefiro eu mesma me manipular pra seguir certos padrões aos quais já me acostumei...Ah,que vontade de fumar...
Era horrível quando ela parecia estar bêbada ou realmente estava...As palavras lhe fugiam em turbilhões da boca e era um desespero só...Tudo extremamente absurdado,tudo completamente exagerado.
-Eu voei no pescoço dele e juro que o mataria se não fosse a lembrança daquele serzinho que perdi quando o jogaram portão a fora na rua nos braços de qualquer pessoa...
-Isso não faz sentido...Você não pode voar.
-É...Eu sei.
Quando surgia o silêncio ela agia feito criança quase.Fazia bico,dava birra,gritava impropérios...Mas tudo ali dentro do decote,perto do coração...Aquilo que sua encarnação como cortesã tinha lhe deixado de acordado: a mania de guardar coisas no decote.
-...eu tenho vontades!Você pode não acreditar.Mas eu tenho vontades, tipo uma vontade absurda de gritar pra todos que eu preciso de um abraço..Ah,preciso tanto de um abraço...E um beijo daqueles demorados...Não, não...Na verdade eu preciso é dormir...O resto estou com preguiça.
Ela dizia mexendo os braços,fazendo as franjas do xale baterem no seu rosto,estragando o batom e os cabelos...E sorria como que pedindo permissão pra enlouquecer,como que pra justificar mais uma vez seu manifesto.
-Sabe, às vezes odeio o sol...Ele é tão grandiosamente....Me fugiu a palavra...
-Quente?
-Não.Chato.
Aquela conversa jamais acabou...Estavam enrolados demais nas fitas dos laços que ela inventava para si alisando as bordas do xale.Devem estar conversando até hoje...Se ninguém desfez o laço....

4 comentários:
Sam sua atrevida
Isso não vale
Escrever tão bem assim é contra a lei viu?
Adorei como sempre Sam
maravilhoso como de costume.
ée !
Beeelo conto !!!!
;)
Muito obrigada!!
O teu blog também é muito interessante.
Beijos
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