segunda-feira, 8 de agosto de 2011



- Recebi abreviadamente seu pedido de desculpas e sinto lhe dizer que é vã sua tentativa de reconciliação. Tenho os dedos roídos de raiva e pavor de assistir a transformação de seu caráter de fraco pra oportunista...
- Eu posso explicar...
- Ainda não terminei... Uma vez ouvi sua boca se mexendo ruminando palavras e dizendo que você sabia fingir...
- Sim, eu disse, mas não era nesse sentido...
- Então disse... Pois bem,  quero deixar bem claro que não quero escurecer minha vida roendo migalhas suas, portanto meu caro, espero que receba de bom grado essas suas recordações, porque de você não quero nem a lembrança... Botei fogo em tudo que era seu e antes que bote fogo em minha mesma e nessa cabeça que não consegue esquecer suas mentiras, leve daqui essas memórias.
As mãos fingiam faltar, tamanho o peso da situação. Estava determinada a esquecer, a boca espumava e os olhos brilhavam de esperança de arrancar a dor pela raiz e finalmente se lavar da lama onde se escondia pra esquecer e cada vez lembrava mais e mais e mais e mais e mais.... A cabeça desconfortavelmente apoiada nos braços sobre a parede, o silêncio cancerígeno, a impiedosa vontade de gritar mas a terapia da solidão havia ensinado a calar...
- Eu fico pensando na minha imensa capacidade de escavar canalhas, encontro canalhas até em caras bonzinhos... Queria acreditar que não sou eu quem torna as pessoas canalhas, queria acreditar que não sou eu quem enfurece os santos e ajusta a mira de todas as desgraças na minha cara, mas não..Eu bem sei o que me difere dos outros: é a singela delicadeza de fingir...Peço aos santos e aos demônios a sabedoria da falsidade, mas meus olhos mentem, minhas mãos tremem e eu vomito verdades...A verdade me embriaga e eu explodo em verossimilhanças e cuspo em faces alheias e pronto, já me odeiam...
A cabeça levemente prensada contra o branco gelo da parede, a sensação de poder contar o movimento do sangue perambulando seu corpo, aquela terrível certeza de estar sendo observada pelo nada. Enquanto os mosquitos tentavam passar pelo vidro da porta mais uma constatação: o impossível é saboroso.

2 comentários:

Löяy Davis disse...

O impossível é saboroso!

Abçs

Gísia disse...

Seguiindo aki seu Blog...
ACHEI MT INTERESSANTE =)

Dá uma passadinha lá no meu tb Obrigada:

http://mundiinhodosonhos.blogspot.com/