quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Autorretrato




Os pássaros presos na imagem
A existência febril do inerte
Os pássaros presos dentro dos olhos
A existência defeituosa :
A existência.

(Sobre perdas e ganhos na bolsa de valores mantenho meus lábios abertos perto da sua orelha que tem cheiro de dentes e sangue.Deliciosamente deslizo minhas palavras no seu pescoço e vejo...Não,não vejo...Ouço...Sobre perdas,sobre o inexplicável...Essa é mais uma tentativa de me explicar,de me mostrar mais humana e mais uma vez não consigo me ver no reflexo do espelho...Aquela mulher me assusta demais, única que consegue gritar de dentro do vidro...)

Eu sou o pássaro
Eu sou a nuvem
presa eternamente no céu
tão mais perto do inferno
As possibilidades angustiantes,
As possibilidades :
Possíveis ausências certeiras
Possível sonho...

(...calcei meus sapatos,revi as cores pintadas falsamente em meu rosto e estava tudo bem dentro de mim,milimetricamente organizado em gavetas que encapei de papel de presente,cada dor em seu devido lugar,já havia conferido...os cabelos queriam voar,libertando-se de mim,libertando-se do convencional.Naquele momento invejei meus cabelos.Descobri uma inveja tão grande dentro de mim...Anotada mais uma culpa.)

Há muitos pássaros no mundo
cagando em janelas alheias
sujando vidraças e bocas abertas bebendo chuva e sol
Eu sou um pássaro preso no céu até a noite e a morte chegar
Não tente corrigir meus erros
Eu quero muito muita coisa
criança mimada querendo doces 
mas que hoje tem medo de engordar

(...já te disse que nada pode satisfazer minhas vontades de alcançar o céu,de ser o que não sou nem jamais serei?Já não te disse que eu não gosto de mim do mesmo jeito que gosto de você e isso me faz me sentir tão mais pequena...E eu sempre querendo mais e mais e mais e mais e muito mais além do mais,colecionando capas pra me mostrar melhor do que sou...É...Nem sempre funciona...)

Eu vou pintando os céus e o rosto com palavras transparentes
esperando alguém escutar,
esperando alguém ler,
esperando alguém cantar debaixo da minha janela
esperando minhas asas crescerem
pra finalmente descansar.

(...de tanto me ignorar esqueci como lembrar,coleciono desculpas pra satisfazer meus vícios com cheiro de hortelã e carne frita...De tanto lembrar tudo ficou óbvio demais,fácil demais,ninguém tem mais limites,olho no espelho e me vejo velha aos 24 ...Nossa,em duas décadas tanta coisa se desfez...A mão pregada ao queixo : o medo de deixar a boca aberta ....Isso..Vou me calar...)

Janela aberta,
Pássaro no céu.
A solidão da liberdade.
Acordaram o sonho.
Acabou a voz.

2 comentários:

Löяy Davis disse...

wow! Poesia livre...
Poetisa!
Mto bom sam...

Renato Rodrigues disse...

A liberdade nem sempre pode ser representada pelo quebrar das correntes né Sam.
O que fizeram das nossas asas?
O despertar de um sonho bom é febril

Adoro sempre minha amiga.
Sempre