terça-feira, 3 de novembro de 2009


O gato na garganta lutando pra sair
-Grita!
Se debatendo na tarde de Itapoã
-O que?
-É na Bahia...
A boca escancarada do céu
vomita na terra:
Chega de chuva...

(Tempestade,tempestade,tempestade!!!)

-Perco os amigos como perco os cabelos,os dentes,
A vida nas cinzas...
(com a caneta nas mãos se aproxima do cinzeiro e desenha flores pra voar no mundo)
-Ah tanta poluição,tanta cinza de gente queimada
Cabeças quentes fervendo os cabelos...
-Perco os amigos feito os dentes,
feito o rumo de casa...
("Só não sei por que estou perdendo tempo escrevendo..." deveria pensar)
-Ei! Não durma! Você não pode! Não deve...
Há muito pra se ler ainda
Vamos,ande!
Leia até seus olhos sangrarem!
-Escute...( ela interrompia com o dedo em riste)
Jamais virão...Nunca virão...Esses sonhos...Jamais verão...
Todo conhecimento é lixo,a morte leva
Se embebede de vida e morra,envolviido em conhecimento...
Perca toda sua vida trancado num quarto lendo os livros dos mortos que foram melhor que você...
E não sofra!Nunca sofra!(grito e tremor nas mãos)
Por um minuto infinito esqueci que nem todos tem bom gosto,me esqueci...Há quem não goste de Chico Buarque - meu deus que heresia...
(e segurava sua cabeça como se estivesse prestes a cair,feito pêndulo de relógio a balançar...)
-Ele disse que devemos sofrer eu sofro
Sofro de fome e sono
mas nada é capaz de saciar o demônio colorido dentro de mim
Que só me faz querer dormir
Que só te faz querer sorrir...
-Não existe amizade.
Não existe sentimentos.
-Apenas convenções...
-Convenções explicitamente assumidas para fugir da solidão
(mais uma vez o pêndulo-cabeça a balançar molemente,rede à beira mar,deixe o vento levar...)
A perda da perda de um sonho
Da companhia...
-Nada existiu...
(ou nada existe...)
-Ele se foi e até hoje não aceito,
não entendo.
Só ficaram as palavras
esvoaçando no ar
rodopiando na memória...
-Só quero que saiba que ausência dói.
Só quero que saiba...
-Ele pegou os cabelos louros de uma bruxa má e fez de cachecol
e eu dormia e o mundo todo dormia e só sobrou a solidão e a fotografia na memória.
-De repente o espelho nos mostra que o tempo passa
o tempo passa,as pessoas passam,os carros passam
as rugas chegam,os amigos somem ou vão embora sem pedir
e mais uma vez nada resta além do pó.
-Quero uma nova roupa pro meu corpo,
Quero maquiagem pro meu humor
Quero um novo perfume pra alma
Quero novidades cosméticas para meu mal de existir
Quero soluções práticas pra mudar o mundo...
-Pequenas utopias...
Seja forte.
Só existe esse fio de vida que passa,
Só existe essa velhice decrépita
a terrível degradação do passar do tempo...
("A gente mal nasce,começa a morrer"
Chico nunca se cansa de cantar...)
-Procuro a razão de existir além do plástico,
Procuro razões...
Não encontro razão pro abandono
Não consigo entender o ser humano...
E já desisti.
-Já desisti.
O ponto final fatal da vida.
E ponto.
-Enquanto o sono te abraça e
A morte te escapa por entre os dedos,
o medo se enrosca nos cabelos úmidos
de suor e revolta e mágoa...
-Há sempre uma página pra virar
Sempre.
Nada é eterno mas há o sempre,pra sempre.
-Sempre.
( e é como se tudo fizesse sentido de repente,
a arma,o ferimento,a cicatriz...
O sonho de ser feliz...
Parada em frente ao espelho não vê as décadas passando.
Delicadamente,deliberadamente
Refaz o sorriso,
Daquele jeito grotesco que só os loucos fazem...
Agarrada ao pente tenta abaixar os cabelos e os sonhos,
Hoje ela não quer voar
Decidiu ser bonita,como nunca ousou ser
E cora ao reconhecer que seus olhos são mais bonitos sem lágrimas...)
-Hoje decidi não louvar mais a dor,
Ou pelo menos não cultivá-la
Sem a dor não teria graça sorrir se não houvesse a ameaça da lágrima...
-A dor.
A dor e a dor da dor de existir.
(Cerrando os punhos
e os dentes
Perdendo a razão e o caminho
Até onde enlouquecer?
Até onde?
Até quando?)
-A dor.
A dor e a dor da dor de respirar.
(O sangue se tornando serragem
Rasgando as veias,
Rasgando...
Rasgando...)
A dor e a dor e a dor
Da dor...
-Essa chuva caindo
parece me afogar os ânimos,
é tanta fúria do vento
(os olhos suplicando ao vento “por favor,pare,é dor demais...”)
E o vento
rasgando livros,
rasgando carne viva,
rasgando as asas dos anjos que voltaram da morte...
-A dor?
A dor e a dor da dor de existir...
Existência maldita
rastejando em meio a dor
A corte do corte...
A deliciosa dor...
-O que,amor?
-O que é arte?
(caminhando por lugares antes navegados,
Corajosamente covarde,
Cabeça erguida,dedo em riste,marcha da solidão...
Gargalhando enquanto o veneno é doce.)
-Tolice de poeta...
(olhos brilhando no escuro,aquele brilho seco de quem busca a sanidade nas folhas secas,num outono prematuro.As lágrimas caindo sem dor)
-Vai passar,um dia passa.
-Ele nunca se cansa de cantar...
(definitivamente parafusado no rosto o sorriso existia,entregue a doçura amarga da solidão,assim ela dormiu.)

3 comentários:

Löяy Davis disse...

Definitivamente sem palavras...

Lise disse...

tão belo, quanto destrutivo! escapei por pouco, mais uma linha e ..

Lindo, Lindo, Lindo!

Anônimo disse...

"Vai passar,um dia passa."
a melhor parte...