sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sobre a dor

Enfio a mão dentro do estômago...Procuro provas...Procuro mais um motivo pra me culpar...
Enfio a mão dentro dos bolsos..Procuro um motivo..Procuro um cigarro, mais um pouco de vontade de se matar..
Enfio os olhos dentro dos óculos...Procuro ouvir,segurar seu rosto com os cílios...Procuro um abraço, um motivo pra fugir...
Enfio os olhos dentro da blusa...Procuro a vergonha...Procuro enxergar...
Enfio os dentes na fruta..Procuro a doçura..Procuro a amargura, a fruta podre.
Enfio os dentes no teu ombro...Procuro a dor...Procuro a cicatriz, a confissão...
Não encontro mais saída...O sangue vira poeira na estrada...A distância e a efemeridade...A vida é o comprimento das veias...A vida é o cumprimento de regras...É o esquecer do acento é perder o assento...Mas a saída está distante demais pra se encontrar na escuridão...Nos clichês de realidade que imaginamos na vida descrida e descrita por Álvares....Ah...
Enfio a mão dentro do estômago...Procuro culpas...Procuro mais um motivo pra me afirmar...
Enfio a mão dentro dos bolsos..Procuro uma solução..Procuro um cigarro, mais um câncer, mais uma briga...
Enfio os olhos dentro dos óculos...Procuro te sequestrar dentro de mim...Procuro no  abraço, o vazio pra sorrir...
Enfio os olhos dentro da blusa...Procuro enxergar...Procuro não chorar...
Enfio os dentes na fruta..Procuro o sabor...Procuro aquela calma de quase saciedade...
Enfio os dentes no teu ombro...Retiro a dor...Encontro a cicatriz : a confissão...
Não há muito o que fazer...Há muito tempo tenho gastado minha licença poética...Essa desculpa não posso usar mais...A verdade é uma só: a verdade já se gastou e virou poeira dentro dos olhos,só incomoda ...Nem diferença faz...Eu sinto cheiro de sangue e gosto de morte...E nem me incomoda mais...Embrulho tudo em papel celofane e faço um laço bem bonito,engulo tudo e ...
Engolindo seus olhos,sua boca,seu corpo,pra me sentir mais sua...Me sentir mais viva,comendo o vento,me enchendo de esperança e tédio...Sem remédio,espero...Irremediável...A mão no pescoço...Ah...Me deixe respirar um pouco...Preciso de um pouco de paz e arsênico...


Um comentário:

Renato Rodrigues disse...

Ai essas imperfeições...
dói tanto
que chega a queimar os nossos pulmões
A um centímetro entre a navalha e o pulso.
Impressionante Sam
Marcante
Belo