quarta-feira, 28 de julho de 2010

Acharam vestígios meus em cima da cama,com a mesma roupa de ontem,ainda de meias,apenas em um pé,meio encardidas é verdade mas ainda meias.Aquele pedaço de corpo, muito mole,com  a pele derretendo,flácido,já envelhecido demais pra ser bonito : aquele corpo era meu...Eu tinha essa noção,eu sabia,eu sabia...Mas não podia conter os pedaços de mim que voavam pela janela que o sol desbotava todo dia.Eu me perdia e nem doía, era quase um prazer, ver meu corpo se perder dentro do céu...As mãos que, vazias,buscavam sentir o gosto das nuvens.A ausência de gostos angustiava a vida.A ausência de explicações angustiava a vida.A ausência de reconhecimentos angustiava a vida. A vida,coitada,de tão angustiada resolveu sumir...Sumir com meu corpo,com meus dedos gelados,com meus cabelos sujos de lama e poeira,comigo.
-Te vejo assim : olhando a vida passar pela janela,fumando um cigarro,gastando a vida e os pulmões.
Até não ter mais nada pra se gastar,vou roendo meus próprio estômago,vou arrancando as próprias unhas,na ânsia de encontrar o cérebro de boneca que perdi há tanto tempo atrás, deixo a vida me gastar...
Deixo os vestígios dos vestígios da sonolência que restaram no travesseiro embaixo da cama,junto com aquilo tudo que me esqueço de não lembrar de fazer.A janela escancarada pro vazio do céu,a boca escancarada de sede,os olhos escancarados de insônia,o corpo escancarado de ausência...Ah,deixa ir...Deixa passar...A vida acaba feito corpo,feito papel guardado...
Ah,deixa passar...Não tem como conter a torneira da vida...

Um comentário:

Renato Rodrigues disse...

É duro quando a angustia toma as rédeas da vida.
Perfeito Sam. sempre