Era como se nunca mais fosse embora
Era como se a embriaguez ficasse escondida atrás da orelha ou nos cabelos ou debaixo das unhas
Era como se o medo e as minhas vontades ficassem mais claras,meio como se houvesse mais luz ou água
Era como se a dor fosse embora e ficasse um torpor e uma vontade imensa de agarrar num abraço louco quem já não está mais
Era como se fosse um dia nublado frio triste e feliz ao mesmo tempo
Era como se todos os sentimentos do mundo coubessem num copo e eu me afogasse nele pra tentar me livrar da solidão
Era como se eu já não soubesse mais o que falar e ficasse repetindo a vida inteira a mesma coisa
Era como se fosse uma maldita festa interminável com pessoas e risos falsos com as unhas pintadas e medos escondidos nos cigarros e desencontros e desilusões conformadas e premeditadas
Mas não era.
Era como uma nuvem de gente rodopiando pelos postes....Uma dormência,uma angústia misturada na gargalhada,uma dor no estômago,uma ausência,uma mágoa,uma deficiência,um defeito no cérebro : poesia...
Tudo passava ao meu redor sem que percebesse,as palavras saiam da boca descontroladas,era apenas uma ânsia de ter um retorno que estava longe do meu alcance,dos meus braços curtos,da minha boca seca,da música repetitiva,da solidão,do cheiro de estar deitada na beira das horas que passam ...Às vezes o tempo passa e leva as dores,às vezes ele passa e traz mais temores,mas é a mutação do mundo virando poeira sob nossos pés.
Meio que me cansei de gritar tanto,quero ser menina,deitar no colo da solidão e pedindo pra passar as mãos nos meus cabelos dormir cantando qualquer coisa só pra fazer barulho debaixo da mesa entre os fios dos cabelos que saem dos buracos no chão.Quero ser assim : só.
Parece que ainda estou na beira do abismo,quase enlouquecendo de tanto ver as verdades que invento pra me convencer de que sou errada demais pra você.Mas estou aqui parada no meio do nada cantando em alguma língua morta ou viva algum modo de fazer acabar a dor de existir!
Era como se eu ainda estivesse a esperar.Esperar um meio de fugir definitivo dos olhos invisíveis de todos aqueles deuses de todas aquelas religiões...Esperar alguém voltar de qualquer lugar pra mais uma vez me abandonar me deixando falando com as paredes que me viram as costas ou me encaram,nunca entendo.
Mas não era...
Era apenas mais uma noite de infinita embriaguez,era só isso.
Nas cores presas em cima dos olhos alheios existia algo de sofrimento...Mas eu fechava os olhos e esquecia de mim e de todos os outros...E existia assim....Contando os passos pra noite acabar...
Era como se a noite nunca mais fosse acabar...Mas os raios de tempestuoso sol queimaram a pele e o sonho,daí tive que dormir.Guardando a embriaguez e a conversa fiada pra outro dia que calhasse,aguardo a ressaca chegar,o sonho desaparecer e a amargura crescer...Aqui no peito,ó.Aqui no chão,ó!
Plantando dores e tremores espero essa noite e essa vida acabar...
Mas não era isso...Não era!

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